sábado, agosto 20, 2005
JACINTO E ROSINHA

A boa menina, Rosinha,
de repente ficou ceguinha;
pensando ser sua mãe a chegar
corre para Jacinto abraçar;
quando ela o rosto percebe
vejam só, ela não estremece,
e, fazendo-se de desentendida,
a beijar o rapaz continua entretida.
Ah, quão pouco ainda haveria de durar toda essa ventura. Chegou de terras desconhecidas um homem que era muitíssimo viajado, tinha uma longa barba, olhos encovados, sobrancelhas imensas, vestes extravagantes com muitas pregas e desenhos de figuras estranhas. Ele sentou-se diante da casa que pertencia aos pais de Jacinto. Como Jacinto era muito curioso, tomou lugar ao lado dele trazendo-lhe pão e vinho. Aí sua alva barba se entreabriu e ele ficou falando até tarde da noite, e Jacinto não saiu de perto dele um instante sequer, nem se cansou de ouvi-lo. Tanto quanto se soube mais tarde, ele teria falado muito de países estrangeiros, regiões desconhecidas, de coisas prodigiosas e surpreendentes, e durante sua estadia de três dias ele arrastou-se com Jacinto até o interior de profundas furnas. Rosinha teve motivos de sobra para amaldiçoar o velho bruxo, pois Jacinto ficou fascinado por sua conversa e não pensou em mais nada, e mal provava um pouco de alimento. Finalmente o outro partiu, mas deixou para Jacinto um livrinho que pessoa alguma conseguia ler. O rapaz ainda lhe entregou frutas, pão e vinho para a viagem, e acompanhou-o por um longo trecho. Retornou, então, pensativo, e seu modo de ser passou por uma total transformação . Era de dar pena o quanto Rosinha sofreu por ele, pois desde então ele pouco se importou com ela e ficava quase sempre sozinho. Mas eis que certo dia ele voltou para casa parecendo renascido. Abraçou efusivamente seus pais e chorou. Preciso partir para terras distantes, disse ele, a estranha anciã da floresta revelou-me um meio que deverá curar-me, ela jogou o livro na fogueira e instou-me a que os procurasse e lhes pedisse sua benção. Talvez eu retorne em breve, talvez nunca mais. Dêem minhas lembranças a Rosinha. Eu teria gostado de falar com ela, mas não sei o que acontece comigo, sinto-me impelido a partir; quando tento rememorar os velhos tempos, de pronto idéias mais possantes se metem de permeio, minha paz se foi, junto com ela meu coração e o amor, preciso partir para procurá-los. Gostaria de dizer-lhes para onde vou, mas nem eu mesmo o sei, irei para onde mora a mãe de todas as coisas, a virgem coberta de véus: por ela é que o meu espírito anseia. Adeus. Ele arrancou-se de seus braços e partiu. Os pais lastimaram-se e verteram lágrimas, Rosinha permaneceu em seu aposento e chorou amargamente. Jacinto andou então o mais ligeiro que pôde, atravessando vales e descampados, transpondo rios e montanhas rumo ao misterioso país. Em todos os lugares perguntava pela deusa sagrada (Ísis) interpelando homens e animais, rochedos e árvores. Uns riam, outros silenciavam, em parte alguma recebia qualquer indicação. No princípio, passou por terras incultas e bravias; nuvens e brumas lançavam-se em seu caminho; a ventania soprava incessantemente. Mais tarde encontrou imensos desertos de areias incandescentes, e, enquanto assim prosseguia, também seu espírito foi-se alterando: o tempo lhe parecia mais lento e a agitação em seu íntimo foi-se acalmando; ele tornou-se mais brando e a sua violenta comoção pouco a pouco deu lugar a um impulso suave mas marcante, no qual toda sua alma se dissolvia. Era como se muitos anos se tivessem passado. A paisagem tornou-se então novamente mais opulenta e variada, o ar tépido e azul, o caminho mais plano; verdes arbustos atraíam-no com sombras deleitosas, mas ele não entendia sua linguagem, aliás eles não pareciam estar falando, apesar disso enchiam seu coração de cores verdes e de uma disposição reservada e serena. Mais e mais crescia dentro dele aquela doce nostalgia, e mais e mais largas e suculentas foram tornando-se as folhas, mais e mais sonoros e festivos os animais e passarinhos, mais aromáticos os frutos, mais escuro o céu, mais quente o ar, e mais ardente seu amor; o tempo ia passando mais e mais célere como se soubesse estar perto do local de chegada. E um dia ele cruzou com uma fonte cristalina e uma multidão de flores que vinham descendo para um vale por entre colunas negras e altas como o céu. Elas gentilmente o saudaram com palavras familiares. Prezados compatriotas, disse ele, onde poderia eu encontrar a sagrada morada da deusa Ísis? Deve achar-se aqui por perto, e talvez vocês conheçam o lugar melhor que eu. Também estamos aqui apenas de passagem, responderam as flores; uma família de espíritos encontra-se em viagem e estamos preparando-lhes o caminho e a pousada, contudo há pouco atravessamos uma região onde ouvimos mencionarem o nome dela. Siga na direção de onde viemos e decerto obterá mais informações. As flores e a fonte disseram-lhe isso com um sorriso, ofereceram-lhe um gole refrescante e prosseguiram em sua jornada. Jacinto seguiu seu conselho, indagou e indagou e finalmente chegou àquela morada que há tanto procurava e que ficava oculta sob palmeiras e outras vegetações magníficas. Seu coração batia com uma nostalgia infinita, e a mais doce ansiedade traspassou-o nesta habitação, que aloja as estações eternas. Imerso em deliciosos aromas celestiais ele adormeceu, pois somente lhe seria permitido adentrar o recinto mais sagrado se fosse guiado pelo sonho. Apoiado apenas em sons e acordes cambiantes, ele foi misteriosamente conduzido pelo sonho através de aposentos infinitos, cheios de coisas estranhas. Tudo lhe parecia tão conhecido e, no entanto, de uma exuberância nunca antes vista; logo a última reminiscência terrena desapareceu, como se tivesse se dissipado no ar, e lá estava ele diante da virgem celestial, ele levantou então o véu leve e resplandecente e Rosinha caiu em seus braços. Uma música longínqua cingiu em mistério o reencontro apaixonado, o transbordar da saudade, e afastou deste lugar encantador tudo o que não era familiar. Jacinto depois disso ainda viveu muito tempo com Rosinha junto de seus venturosos pais e companheiros, e incontáveis netos agradeceram à estranha anciã da floresta pelo seu conselho e sua fogueira, pois naquela época as pessoas tinham tantos filhos quanto queriam...
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