sábado, setembro 16, 2006
D.PEDRO V


Era filho desta soberana, e de seu marido, el-rei D. Fernando. Chamava-se D. Pedro de Alcântara Maria Fernando Miguel Rafael Gonzaga Xavier João António Leopoldo Victor Francisco de Assis Júlio Amélio.
Educado primorosamente, assim como seus irmãos, pelos melhores professores de Lisboa, e principalmente por sua mãe, que teve sempre a justíssima reputação de excelente educadora, revelou desde muito novo as brilhantes qualidades que o ornavam, a sua notável inteligência, a sua tendência para um perseverante estudo, e as mais nobres e mais elevadas qualidades de espírito e de coração.
Foi jurado e reconhecido príncipe real e herdeiro da coroa pelas cortes gerais a 26 de Janeiro de 1838, tendo de idade pouco mais de 4 meses.
Contava 16 anos quando faleceu sua mãe, a 15 de Novembro de 1853, a quem sucedeu no trono. Marcando-se aos 18 anos a maioridade dos reis de Portugal, D. Pedro V era ainda menor, e nesse mesmo dia foi convocado o conselho de Estado, que deliberou confiar a regência do reino, durante a menoridade do jovem monarca, a seu pai, el-rei D. Fernando, visto não haver disposição alguma a tal respeito na Carta Constitucional, deliberação que foi depois confirmada pelas cortes gerais, e de que prestou juramento na sessão de 19 de Dezembro de 1853.
D. Pedro V e seu irmão D. Luís, que mais tarde lhe sucedeu no trono, empreenderam uma viagem de instrução e recreio pela Europa.
Em Maio de 1854 saíram a barra de Lisboa a bordo do vapor Mindelo, indo directamente a Londres, passando de. pois à Bélgica, Holanda, Prússia, Áustria, França e Saxe-Coburgo-Gotha, voltando a Londres, donde regressaram a Lisboa. Em todas estas cortes granjearam os régios viajantes as maiores provas de consideração e de simpatia. No ano seguinte, 1855, empreenderam nova viajem, visitando outra vez algumas das terras já citadas, e também a Itália, Suiça, etc.No seu regresso, completando D. Pedro V, 18 anos a 16 de Setembro, foi nesse dia declarada a sua maioridade, e prestou juramento em sessão solene das cortes.
Realizaram-se grandes e entusiásticas festas em Lisboa, para solenizar o novo rei que ia assumir o pesado e espinhoso cargo da governação do reino. Grandes infortúnios começaram desde logo a assinalar o seu reinado. Em 1856 desenvolveu se em Lisboa a cholera morbus, e em muitos outros pontos do país, fazendo consideráveis vítimas, e no ano seguinte, 1855, outro flagelo, que se tornou ainda mais devastador, a febre-amarela, veio assolar a capital.
Foram dois anos de tristíssima memoria, que enlutaram milhares de famílias, extinguindo-se muitas delas completamente, deixando muitas crianças na orfandade. A cidade de Lisboa, principalmente em 1857, apresentava um aspecto tristíssimo. Com especialidade. na cidade baixa, viam-se encerrados numerosos estabelecimentos; uns, por seus proprietários terem falecido, outros por terem saído de Lisboa fugindo ao terrível contagio. O terror geral era indescritível; por ordem do governo foram os jornais proibidos de darem longas noticias sobre os falecimentos, e o número e nomes das vítimas, que chegavam a ocupar diariamente muitas colunas; os enterros passaram a fazer-se de noite, observando-se a maior simplicidade, não sendo permitidas as pompas fúnebres, apenas uma sege conduzindo o morto e o padre para o acompanhar. Não sendo suficientes os hospitais que existiam, para abrigarem o número enorme de atacados, organizaram-se alguns provisórios em certos pontos da cidade; numerosas procissões de penitência percorriam as ruas, e nas igrejas todos os dias se entoavam preces. Os teatros e outros divertimentos públicos fecharam. A consternação era geral; as ruas viam-se desertas, o terror via-se estampado em todas as fisionomias. Abandonaram a cidade, indo viver para os arredores e para outras terras distantes, altos funcionários e outros empregados públicos, capitalistas, negociantes, o próprio patriarca, e no meio desta pavorosa e angustiosa situação sobressaía a figura do jovem monarca que, apesar dos conselhos de quantos o rodeavam, não quis abandonar Lisboa, e qual outro apóstolo do bem e da resignação, se dirigia aos hospitais, sentando-se junto dos leitos dos enfermos, a quem dirigia palavras de conforto e de esperança. Quando os ajudantes que o acompanhavam nestas piedosas visitas lhe pediam que não se expusesse assim tão temerariamente ao terrível contágio, respondia secamente que se tinham medo o deixassem, que ele podia ali estar só. Este acto de abnegação e caridade causou a maior impressão em toda a gente e a admiração até dos estrangeiros. Um rapaz que apenas contava 20 anos de idade, dando um exemplo tão grandioso de amor pelos que sofriam, procurando suavizar-lhes o sofrimento, ao menos animando-os com a sua presença.D. Pedro V tornou-se muito popular; o povo adorava-o, e chamava-lhe o rei santo. A sorte protegia-o, porque expondo-se com tanta afoiteza, com tanta coragem ao perigo do tenebroso contágio, não teve o menor sinal de doença naqueles meses de Agosto, Setembro, Outubro e Novembro de 1857, em que mais se pronunciaram os efeitos da epidemia. Pouco a pouco foram rareando os casos, que até então eram numerosos todos os dias, e quando chegou o fim de Dezembro estava a febre amarela completamente debelada, restando os choros e os lamentos das pessoas que tinham perdido parentes queridos, e crianças órfãs, que se viam sós entregues à mais profunda tristeza e saudade. Chegou depois o ano de 1858, que trouxe para Portugal dias mais sossegados e mais felizes. Para suavizar as angústias dos dois anos anteriores, tratou-se do casamento do jovem monarca, que se tornara o ídolo do povo. Essa notícia foi recebida com o maior entusiasmo sendo a esposa escolhida a princesa de Hohenzollern-Sigmaringen, D. Estefânia Josefina Frederica Guilhermina Antónia, segunda filha do príncipe soberano do Hohenzollern-Sigmaringen, Carlos António Joaquim, e de sua mulher D. Josefina Frederica. O casamento realizou-se por procuração em Dresde a 29 de Abril de 1858, e em pessoa, em Lisboa, a 18 de Maio, na igreja de S. Domingos, um formoso dia de primavera, que parecia vir também saudar os régios noivos, reunindo-se ao entusiasmo que se notava por toda a parte, à alegria e satisfação que reflectia em todos os semblantes. As aclamações e os vivas, que o povo soltava durante o trânsito do Terreiro do Paço, onde a jovem rainha desembarcou, até à igreja de S. Domingos, chegaram ao delírio. A rainha D. Estefânia granjeou logo também as maiores simpatias; o seu carácter, por um acaso que poucas vezes se encontra nestas uniões monárquicas, estava em perfeita harmonia com o carácter de seu marido. Os régios esposos amaram-se extremosamente. Passaram em Sintra a lua-de-mel durante o Verão desse ano de 1858, e muitas vezes se encontravam passeando sozinhos de braço dado pelos caminhos mais solitários da serra, passeios que muitas vezes repetiam. em Lisboa, e que inspiravam ao povo a mais profunda simpatia, porque davam um exemplo não muito frequente de amor no casamento e de amor no trono, e o exemplo das virtudes domésticas mais elevadas com a pureza do seu viver, com o afecto que os unia, o qual se manifestava a cada instante. Foi nesse ano de 1858 que. D. Pedro V teve a nobre ideia de fundar em Lisboa os altos estudos literários que não existiam em Portugal, e que depois da morte dele pouco desenvolvimento tiveram. Cedeu uma parta da sua lista civil para se comprarem inscrições, que constituíssem a dotação de um novo estabelecimento de instrução superior, o Curso Superior de Letras, onde se criaram as cadeiras de história, de literatura antiga, de literatura moderna, de filosofia da história e de filosofia transcendente, cadeiras que foram regidas por Lopes de Mendonça, Rebelo da Silva, Jaime Moniz, etc. Era essa a fundação querida de D. Pedro V, e muitas vezes o estudioso monarca que amava as letras e a ciência, ia ouvir as lições dos professores, escutando de preferência a palavra inspirada e eloquente do grande Rebelo da Silva.Mas ainda não estavam completas as provações por que tinha de passar o infeliz rei, no seu tão curto reinado de 6 anos. Sucederam um ao outro dois factos que profundamente o feriram, um como rei, e o outro como esposo dedicado e carinhoso. Como rei, foi a questão com o governo imperial de França, em 1859, que por causa do apresamento da barca Charles et Georges, mandou uma esquadra às águas do Tejo tomar aquele navio e afrontar a bandeira portuguesa; como esposo, viu nesse mesmo ano, a 17 de Julho, sucumbir, vítima duma angina que em tão pouco tempo roubou a Portugal uma rainha bondosa e altamente simpática, deixando D. Pedro inconsolável com tão infausta perda.