sábado, dezembro 30, 2006
O CHALAÇA


Por ele seduzida, a moça registrou a criança como "filho de pais incógnitos".
Apesar de não assumi-lo, o Visconde o manteve junto de si, com todo o conforto, até o momento em que decidiu casar-se com a filha do conde de Resende.
Naturalmente, a noiva não queria saber de convivência com a "outra" sob o mesmo tecto.
Para contentá-la, o visconde teve de mandar sua infortunada amante para a África e fazer desaparecer o menino Francisco, que contava então oito anos.
A solução encontrada foi engenhosa: o visconde pagou oito mil cruzados (bela soma na época) a um protegido, Antonio Gomes, para assumir a paternidade do menino e o registar como filho legítimo.
O pai "testa-de-ferro" ainda ganhou, por influência do visconde, um emprego público como ourives da casa real.
Quanto a Francisco, foi mandado para o seminário de Santarém, preparar-se para ser padre.
Lá, aprendeu filosofia e latim, além de falar fluentemente francês, inglês, italiano e espanhol. Este preparo cultural em muitjudaria, aliás, na idade adulta.
Estava quase a ordenar-se sacerdote quando chegaram as notícias dos preparativos da fuga da corte portuguesa para o Brasil. Tinha 16 anos. Brigou com o reitor e com o padre-mestre de disciplina do seminário e viajou para Lisboa, decidido a participar dos acontecimentos.
No caminho, foi preso por uma guarnição francesa e condenado como espião. Às vésperas de ser fuzilado, conseguiu por acaso evadir-se de forma espetacular, chegando ao cais de Lisboa na mesma manhã em que D. João VI e sua corte embarcavam para o Brasil.
De alguma forma conseguiu reencontrar o pai adoptivo e introduzir-se nas embarcações.
De condenado à morte, passou a membro da multidão de 15 mil lusitanos que desembarcaria no Rio de Janeiro em março de 1808.